segunda-feira, 1 de agosto de 2011

[Mês do escritor louco #1] Homem: Remoto Controle

Era tudo uma grande e sem graça piada. Jamais acordaria daquele jeito novamente. Pé esquerdo ou direito, que diferença faz? Mas acordar com o corpo inteiro já é uma metáfora exagerada. Aquele homem sabia seu lugar no mundo! Quem o destino pensa que é tentando segurá-lo? Cair da cama e fazer o silencioso som de um peso morto embrulhado no cobertor ao tocar o chão é humilhante para alguém como ele.

Levantou-se e seguiu em frente. Aquele dia havia de começar, não importava como. Se já estava acordado, então que isso seja útil de alguma maneira. Tomou um banho, escovou os dentes, fez a barba, vestiu seu melhor terno e passou seu melhor perfume. Estava perfeito, como em todos os outros dias. Vivia sua rotina exatamente assim: o mais cotidianamente possível, com seus planos e suas regras. Não há espaço para surpresas. Considerava todos os acontecimentos minuciosamente previsíveis e suas soluções eram preparadas de antemão.

Seu relógio de punho marcava sete horas e quarenta e oito minutos da manhã. Sincronia perfeita! Em apenas 7 minutos passaria pela entrada do prédio onde trabalha e chegaria meia hora mais cedo, como sempre o fez. Estacionou o carro e saiu. Andando pela calçada, uma elegante mulher passou por ele enquanto o cumprimentava. Ele devolveu a gentileza, mas estava perplexo: por que alguém diria algo, mesmo tão trivial como um "oi", para uma pessoa que nunca viu, assim, aleatoriamente na rua, sem a intenção de parar para conversar?

Ele virou para olhá-la, talvez até chamá-la, mas esta já havia desaparecido de vista. Não tinha jeito, precisava se apressar ou se atrasaria em sua própria rotina. Mas isso não importava. Seu desempenho no trabalho foi pobre, estava sempre distraído, algo continuava martelando incansavelmente sua mente. Tentava, mas não conseguia se livrar da lembrança do incidente. O que se passou na cabeça da elegante mulher que vira? Ele era um homem de recursos e de padrões, portanto decidiu que criaria um plano infalível para revê-la e perguntar o motivo de ela ter feito tudo aquilo. Com certeza encontraria um modo, ele controla seu rumo, é senhor de seu destino.

Até o fim de suas vidas, nunca mais se encontraram. O que ninguém sabe é que foram enterrados um ao lado do outro.


23 de fevereiro de 2009

8 comentários:

Jefferson Sato disse...

O "primeiro" texto de meu heterônimo. Um pequeno conto que escrevi em algum momento de tédio com a intenção de ser diferente do estilo que eu normalmente usaria.

Lembrando que a cada três dias durante agosto tem um texto novo do meu lado esquizofrênico lírico! então agradeço quem puder acompanhar e ler!

Carolina disse...

Apesar de raramente comentar, sempre acompanho seu blog e adoro ler seus textos. Adorei a ideia de vc publicar os textos dos seus heterônimos.
You know I love you no matter what!

Raphael "TT" disse...

Esse cara era complexado...ele deve ter se matado ou uma bigorna caiu na cabeça dele u.u
Parabéns mr. green!

Tamara disse...

Ei Sato,

gostei do texto, me fez lembrar umas histórias que ouvi quando visitei uns cemitérios lá na Argentina. Eu acho que quando você se apega demais à rotina deixa de perceber coisas interessantíssimas né...mas todo mundo diz que eu sou excessivamente trivial...então sei lá.

Lila Witte disse...

Ele poderia ter passado a vida inteira com ela, se o vício da rotina não o impedisse de uma conversa. Aposto que isso acontece muito na vida real!

Adorei Jeff, vou acompanhar! :D

Tiago Benevides disse...

É triste como tanta gente (não me excluo disso) tem vontade de iniciar conversa com algum estranho mas não tem coragem de fazê-lo. O homem aí, pelo menos era determinado.

Tatiane disse...

Grotesco e realista, mas de uma forma poética.

Warning! disse...

Isso me lembra a minha dificuldade em dizer um simples "Oi"