quinta-feira, 10 de março de 2022

Desequilíbrio do “eu” em primeiro lugar

 

Fonte: Vie Studio/Pexels

A questão da saúde mental está em alta ultimamente — ou, pelo menos, muito mais falada do que costumava ser há pouquíssimos anos. E isso é ótimo! Estamos dando mais atenção e valor para a sanidade e para as necessidades que cada um de nossos cérebros têm. Mas também sinto que isso tem gerado uma tendência perigosa, se for usada fora de contexto ou sem perspectiva: a filosofia do “‘eu’ em primeiro lugar”.

Nesta nova e majoritariamente benéfica onda, é dito que o indivíduo deve se colocar antes de outras coisas que são, discutivelmente, menos importantes. Como o trabalho, por exemplo, em uma sociedade que considera o sacrifício do funcionário pela companhia como algo “louvável”, gerando depressão, exaustão e uma infinidade de problemas de saúde e psicológicos. As pessoas DEVEM se priorizar, sim!

Só que tudo na vida precisa ser um equilíbrio — um conceito, sinto eu, muito pouco seguido pela humanidade em geral, que tende a ser radical, exagerada e extrema com uma frequência alarmante. Basta olharmos para as polaridades que acontecem no mundo, que vão desde posicionamento político até… gostos no mundo do entretenimento? As pessoas brigam, às vezes violentamente, para ver qual é a melhor empresa de super-heróis, qual tem o melhor videogame, qual estilo musical presta ou não. Não apenas é um foco errado, já que o objetivo deveria ser simplesmente curtir estas mídias, como parece não existir meio termo.

Esta mania de ser extremo afeta todos os aspectos do ser humano, infelizmente. E é quando colocamos o “eu” antes de outras pessoas que sinto morar o maior perigo. Devemos fazer isso, é claro, mas não em todas as ocasiões. Não com todo mundo. Não a qualquer custo. E noto, cada vez mais, gente que não sabe fazer esse filtro. Quer dizer, que nem se importa com ele. E a verdade é que o atual pensamento não tenta remediar isso. Pelo contrário: às vezes até incentiva, como se pensar nos outros fosse errado.

Não é tão preto no branco assim. De vez em quando, precisamos, sim, priorizar o próximo. Sua mãe, um amigo, um estranho. Não só pelo bem geral, mas também pelo bem próprio. Certamente existe gente suja que consegue dormir de noite enquanto ignora as necessidades alheias, mas acredito que a maioria não. E talvez seja ainda mais traumático ter esta antipatia de forma acidental, porque pode ser tarde demais quando descobrirmos o que fizemos, o tamanho do dano que causamos na psique de alguém — um estrago possivelmente irreversível.

O universo exige equilíbrio. Nossa cabeça também. Se coloque em primeiro lugar, mas não deixe de se preocupar com o próximo. Ajude quem e como puder. Dê valor e atenção às necessidades alheias. Não é nada fácil balancear estes extremos, mas é fundamental. Caso contrário, viveremos um ciclo paradoxal em eterno colapso. Afinal, se todo mundo deixar os outros de lado em nome da própria saúde mental, ninguém conseguirá ter saúde mental.

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10 de março de 2022
Publicado originalmente no Medium.