quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Exposição Em Palavras

Como se expor ao mundo? Sempre danço com a ideia de que quero voltar a escrever por prazer, mas toda vez sinto que falta algo. Há uns 15 anos tento entender por que, e acho que, finalmente, cheguei em uma resposta — ou algo do tipo. O que me falta não é técnica ou motivação… é coragem. Eu não consigo mais me expor.

Formei a maior parte da minha vida em volta da diversão que sinto com escrita e com leitura (o que é irônico, porque hoje não escrevo mais e leio muito pouco). Para mim, é como um quebra-cabeça de palavras, mas sem uma solução específica. É um Lego intangível com o qual montamos ideias, emoções e significados.

O que me escapou na última década foi o óbvio: escrever é se expor. Ser lido é deixar que todos vejam os pensamentos incompletos, as contradições e as falhas que existem em mim. É me oferecer ao julgamento, e sinto que não estou mais confortável com isso.

Toda vez que tenho uma ideia, busco desculpas para não levá-la para frente. Tenho medo de soar pretensioso, de ser mal interpretado, de não conseguir sustentar o que digo por qualquer motivo. Sinto que é mais difícil me divertir escrevendo em um mundo que parece exigir cada vez mais posicionamentos definitivos. Isso sem contar que, quanto mais velho, mais niilista fico. Sequer vale a pena o esforço (e o risco)?

Mas será que não foi sempre assim e eu não escrevia APESAR disso tudo, seja por força da coragem ou pela bênção da ignorância? Diabos, isso sequer importa? Nosso tempo é curto, o que se ganha com essas limitações? Só faça. Só viva.

Sinto falta de compartilhar ideias, de fazer os outros pensarem sobre alguma coisa (mesmo que não concordem comigo) ou, simplesmente, de dar vazão às besteiras que vêm à cabeça. Talvez 2026 seja o momento de fazer isso, afinal, todo mundo adora um objetivo de Ano Novo, não é mesmo? Pois bem. Sem precisar escrever bem. Sem precisar atender expectativas (nem mesmo as minhas). Só quero transformar, mais uma vez, a represa da minha mente em um rio e nadar nele. Nu.

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1º de janeiro de 2026
Publicado originalmente no Substack. 

quinta-feira, 10 de março de 2022

Desequilíbrio do “eu” em primeiro lugar

 

Fonte: Vie Studio/Pexels

A questão da saúde mental está em alta ultimamente — ou, pelo menos, muito mais falada do que costumava ser há pouquíssimos anos. E isso é ótimo! Estamos dando mais atenção e valor para a sanidade e para as necessidades que cada um de nossos cérebros têm. Mas também sinto que isso tem gerado uma tendência perigosa, se for usada fora de contexto ou sem perspectiva: a filosofia do “‘eu’ em primeiro lugar”.

Nesta nova e majoritariamente benéfica onda, é dito que o indivíduo deve se colocar antes de outras coisas que são, discutivelmente, menos importantes. Como o trabalho, por exemplo, em uma sociedade que considera o sacrifício do funcionário pela companhia como algo “louvável”, gerando depressão, exaustão e uma infinidade de problemas de saúde e psicológicos. As pessoas DEVEM se priorizar, sim!

Só que tudo na vida precisa ser um equilíbrio — um conceito, sinto eu, muito pouco seguido pela humanidade em geral, que tende a ser radical, exagerada e extrema com uma frequência alarmante. Basta olharmos para as polaridades que acontecem no mundo, que vão desde posicionamento político até… gostos no mundo do entretenimento? As pessoas brigam, às vezes violentamente, para ver qual é a melhor empresa de super-heróis, qual tem o melhor videogame, qual estilo musical presta ou não. Não apenas é um foco errado, já que o objetivo deveria ser simplesmente curtir estas mídias, como parece não existir meio termo.

Esta mania de ser extremo afeta todos os aspectos do ser humano, infelizmente. E é quando colocamos o “eu” antes de outras pessoas que sinto morar o maior perigo. Devemos fazer isso, é claro, mas não em todas as ocasiões. Não com todo mundo. Não a qualquer custo. E noto, cada vez mais, gente que não sabe fazer esse filtro. Quer dizer, que nem se importa com ele. E a verdade é que o atual pensamento não tenta remediar isso. Pelo contrário: às vezes até incentiva, como se pensar nos outros fosse errado.

Não é tão preto no branco assim. De vez em quando, precisamos, sim, priorizar o próximo. Sua mãe, um amigo, um estranho. Não só pelo bem geral, mas também pelo bem próprio. Certamente existe gente suja que consegue dormir de noite enquanto ignora as necessidades alheias, mas acredito que a maioria não. E talvez seja ainda mais traumático ter esta antipatia de forma acidental, porque pode ser tarde demais quando descobrirmos o que fizemos, o tamanho do dano que causamos na psique de alguém — um estrago possivelmente irreversível.

O universo exige equilíbrio. Nossa cabeça também. Se coloque em primeiro lugar, mas não deixe de se preocupar com o próximo. Ajude quem e como puder. Dê valor e atenção às necessidades alheias. Não é nada fácil balancear estes extremos, mas é fundamental. Caso contrário, viveremos um ciclo paradoxal em eterno colapso. Afinal, se todo mundo deixar os outros de lado em nome da própria saúde mental, ninguém conseguirá ter saúde mental.

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10 de março de 2022
Publicado originalmente no Medium.